Acredito que neste ano de 2017 eu tenha comparecido a pelo menos um evento sobre tecnologia a cada 15 dias (sendo que em alguns momentos foram mais até), em diversos lugares do Brasil. Talvez alguns que irão ler esse texto sejam os amigos que viajam nestes eventos pelo mundo afora, e me concederam o privilégio de falar sobre o que viram por lá. Este imenso privilégio – de observar diversas cabeças pensando e palestrando sobre inúmeros aspectos da inovação e do caminho inexorável da humanidade para uma singularidade tecnológica – me produziu ao mesmo tempo uma fascinação desenfreada e uma inquietação preocupante.

Como não se empolgar com nosso avanço no domínio do processamento e armazenagem de dados em larga escala e sua acessibilidade maleável, transformando e redefinindo não só nosso comportamento como a percepção da humanidade. Seja pelas redes neurais que potencializarão não só as Inteligências Artificiais como também o transumanismo , seja pelo rearranjo da cadeia produtiva provocado por inovações disruptivas e tecnologias pervasivas, o futuro definitivamente será diferente do que esperamos.

Porém, a inquietação vem sempre quando nos perguntamos: “Por quê?”

Por que estamos criando tecnologias que irão acabar com a utilidade de empregos, sem ao menos discutirmos essas consequências. Considerando que as camadas mais pobres da população possuem apenas como bem sua força de trabalho, com que lógica criamos tecnologias que, ao invés de facilitarem seus objetivos, criam vetores capazes de concentrar ainda mais poder nas mãos de quem já detém grande parte dos meios de produção.

E convido aqueles que se incomodam com o questionamento sobre a economia capitalista a se perguntarem “o porquê” de sua posição socioeconômica. Por que você exatamente trabalha da forma como trabalha? Será que você consegue uma resposta prática?

Faça um minuto de reflexão para verificar se não deveríamos no século 21 estar discutindo o que produziríamos cultural e cientificamente com nossas incríveis 14h de tempo livre ao dia, pois dada a evolução de nossa tecnologia, conseguimos prover o que precisamos com apenas 2h diárias de trabalho. Nunca nos perguntamos por que temos cada vez mais produtividade, quando está claro que nosso planeta não é capaz de suprir ou suportar nossa produção desproporcional. Ou por que contabilizamos empregos perdidos a cada negócio disruptivo (que é uma palavra negativa e não positiva), lançado sem erguer uma mínima sobrancelha de desconfiança sobre os resultados desse movimento.

Talvez a “cereja do bolo” de toda essa história ainda seja observar a plateia destes eventos e perceber que são pessoas brancas, de classes sociais elevadas e provavelmente “formadoras de opinião”. Será que as tecnologias que criamos não estão a cada dia sedimentando e normalizando uma desigualdade endêmica de nossa sociedade?

Não conseguimos sequer resolver o problema daqueles que têm fome no mundo (usando uma máxima até simplória) e estamos prestes a engrossar as fileiras daqueles que perderam o valor na sua força de trabalho. Discutimos as amplas possibilidades de comunicação global de uma internet livre, mas não somos capazes de incluir a ampla maioria da humanidade nesta conversa. Será que somos inteligentes o suficiente para lidar com uma outra inteligência, esta artificial, tecnológica e capaz de reescrever a humanidade?

Provavelmente você que está lendo este texto vai “se adaptar”. Vai “correr atrás”, se capacitar e encontrar uma forma de não ser substituído por uma máquina. Você tem acesso a internet, tem uma formação, tem bons contatos, tem experiência no seu trabalho. Os outros que se virem…

Afinal, a vida não é sobre se salvar do leão, mas sim conseguir ser o último a ser pego por ele, não é mesmo?

Pra você que chegou até aqui, deixo claro que não há respostas simples para esta questão e isso não é o real problema. Esta arenga de “apontar os erros” é sem dúvida o mais confortável discurso, pois revela muitas vezes o óbvio sem ser propositivo. O problema é não estarmos fazendo estas perguntas.

De uma visão utilitarista plena da tecnologia, apartada de emoções básicas como compaixão e empatia, chegaremos a um futuro tecnologicamente avançado, mas completamente desumano.

Um futuro que eu espero trabalhar agora para não conhecer.

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